Segundo Eduardo Carmello, consultor organizacional que lançou recentemente o livro "Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor", pela Editora Gente, a resiliência respeita as circunstâncias em que a empresa encontra-se. “Faz uma análise da situação, descobre como a mesma está adaptando-se, define o tempo que tem para promover mudanças”, complementa. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Carmello faz uma ressalva sobre os motivos que o levaram a se dedicar a lançar um trabalho sobre esse assunto que tem conquistado cada vez mais espaço no meio organizacional e despertado o interesse de muitos profissionais de Recursos Humanos. Certamente, essa entrevista é de interesse de todos aqueles que não querem ficar parados “no tempo e no espaço”. Aproveite a leitura e reflita sobre o assunto!
RH.COM.BR - Qual o conceito e a origem da resiliência?
Eduardo Carmello - A etimologia da palavra resiliência vem do latim, resílio ou resilié, que significa “saltar novamente”, "voltar ao estado natural". O conceito de resiliência ganhou proporções maiores no campo da educação, sociologia, física, psicologia, medicina, e agora administração. Utilizam-se do termo, inicialmente, para designar a capacidade que um sistema tem de se adaptar e se sobrepor diante de adversidades, embates e traumas, com o máximo de inteligência, saúde e competência possível. Atualmente, o conceito ganha maturidade e expansão, sendo utilizada em gestão para designar a capacidade de uma empresa, líder ou profissional em promover as transformações necessárias para alcançar seu objetivo ou propósito maior.
RH - Quando a resiliência passou a ser utilizada no ambiente corporativo?
Eduardo Carmello - Pelo que sabemos, o conceito de resiliência é utilizada no campo da administração, desde 1974, quando o consultor organizacional Daryl Conner forma a ODR INc, uma companhia de pesquisa e desenvolvimento que examina a dinâmica da resiliência humana em cenários organizacionais, principalmente em processos de Gestão de Mudanças. Conner afirmou que “precisamos de executivos e supervisores resilientes que saibam como gerenciar a mudança de uma maneira conscientemente competente. Eles devem implementar mudanças com êxito para si e para outros, aplicar consistentemente os mecanismos que usam e ser capazes de se referir a estes métodos como uma disciplina estruturada, para que os outros possam aprender e aplicar as mesma estratégias”.
RH - O que levou o conceito de resiliência ganhar força no meio organizacional?
Eduardo Carmello - A resiliência vem ganhando tanta força nos últimos dez anos no mundo inteiro, pois tem demonstrado que, mesmo diante de um cenário de instabilidade e mudança, algumas empresas conseguem maximizar desempenho e produzir valor com o máximo de competência, inteligência e saúde possível. A resiliência pode ajudar empresas, líderes e profissionais a obter melhores resultados comerciais e sociais, obtendo o melhor do processo de mudança: uma oportunidade de ampliar nossas visões, crenças e competências para a criação de coerência estratégica - entregar o que promete, integrar discurso e prática, conseguir realizar aquilo que deseja ser.
RH - Recentemente, o Sr. lançou o livro "Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor". O que o motivou a lançar esse trabalho e qual a sua proposta?
Eduardo Carmello - Vejo o mundo e os clientes mudando mais rápido e intensamente do que empresas e profissionais. Isso tem causado muito esforço, desgaste e pouco resultado, pela dificuldade em lidar com a complexidade e mudança de paradigma. O padrão natural, o mais utilizado é esperar as coisas acontecerem para se fazer algo a respeito. Parece ser mais fácil apagar o incêndio em vez de evitá-lo. Ainda há uma atitude muito passiva na resolução de problemas nas empresas. A proposta com a resiliência é ajudar empresas a criar uma mentalidade de antecipação e criação de solução no timming correto. Que elas percebam que a insegurança é inevitável, mas a coragem, o envolvimento e a inteligência é que fazem o diferencial na mudança. A resiliência pode ajudar as empresas e os profissionais a serem promotores de sua própria transformação, criando um processo consistente que o leve ao alcance de seus objetivos.
RH - Para quem sua obra está focada?
Eduardo Carmello - Para profissionais que estão interessados em promover mudanças de maneira consistente, aumentando as chances de sucesso em empreendimentos que lhe são valorosos. Entre eles, podemos destacar: líderes - presidentes, diretores, gerentes, supervisores, coordenadores; especialistas em Recursos Humanos e Desenvolvimento Organizacional; consultores internos e externos; professores, coaches, conselheiros e mentores em projetos de mudança e desenvolvimento; profissionais que querem e precisam desenvolver suas competências para lidar com projetos de alta complexidade e intensidade.
RH - Como a resiliência pode ser desenvolvida na prática?
Eduardo Carmello - O processo de resiliência respeita as circunstâncias em que a empresa encontra-se. Faz uma análise da situação, descobre como a mesma está adaptando-se, define o tempo que tem para promover mudanças e cria uma solução de resiliência a partir das necessidades específicas e das oportunidades de melhoria que a empresa pode obter com a mudança. O modelo de Resiliência, que se propõe a criar uma intervenção pró-ativa e positiva, segue uma estrutura que denominaremos de 4 Elementos / 4 Componentes (4e4c). Seu objetivo é obter a análise mais realista possível da situação em que o sujeito, o grupo ou a empresa se encontra, compreender como o mesmo está respondendo à situação, descobrir qual o tempo que se tem para promover uma solução e empreender uma abordagem resiliente, utilizando-se como recurso os quatro componentes de Resiliência, descritos no livro.
RH - Quais as características dos profissionais com potencial resiliente?
Eduardo Carmello - São protagonistas: incluem-se na situação, posicionam-se como co-responsáveis e como peça-chave para o alcance de seus resultados; são criativos: capacidade da pessoa ou do grupo para transformar e construir idéias, objetos e ações em algo diferente e inovador, buscando novos padrões de solução e crescimento; gostam e aceitam mudanças: estão abertos às reflexões e às experiências, interessados em diversidade e inovações; auto-estima: capacidade que a pessoa ou o grupo tem de respeitar, valorizar e amar a si mesma; auto-eficácia: crença na capacidade de organizar e realizar uma seqüência de ações para produzir um resultado desejado. Esse conceito é utilizado pelo psicólogo Albert Bandura. Senso de humor: capacidade da pessoa ou do grupo expressar verbal e corporalmente elementos incongruentes e hilariantes com efeito tranqüilizador e prazeroso para si e para os outros, sem jocosidade ou desprezo; emocionalmente inteligente: capacidade de sentir, entender e aplicar eficazmente o poder e a perspicácia de nossas emoções como uma fonte de energia, informação, conexão e influências humanas.
RH - O entendimento equivocado da resiliência pode levar o indivíduo a ser passivo ou mesmo, em casos mais extremos, tornar-se "um saco de pancadas"?
Eduardo Carmello - É preciso ter muito cuidado com o conceito, pois muitas revistas e pessoas conhecem uma versão limitada de que ser resiliente é “agüentar” a situação, “suportar pressão”, "ser saco de pancada" ou até mesmo "deixar submeter-se passivamente". Você não é elástico, ponte, silicone. Tudo isso são metáforas produzidas por pessoas que olharam o conceito pelos filtros da física - objetos passivos, que não sentem, não andam e não têm propósito - e não correspondem ao que se espera de um profissional resiliente em um mundo altamente dinâmico e turbulento. Você é resiliente quando cresce nas mudanças, inova, antecipa-se às situações e produz coerência estratégica para sua equipe e clientes. Sua influência como um ser resiliente precisa ter mais impacto pró-ativo e orientado para o futuro.
RH - Quem deve gerir o processo de resiliência nas empresas?
Eduardo Carmello - Deve haver uma co-responsabilidade entre a presidência, o comitê de desenvolvimento e principalmente a liderança, pois esta é a catalizadora de todos os programas e as iniciativas de melhoria na organização.
RH - Em que momento a resiliência deve ser utilizada nas empresas?
Eduardo Carmello - A resiliência pode ser utilizada em momentos onde a organização precisa urgentemente: promover as mudanças necessárias para atingir seus objetivos e os da empresa; manter as competências e as habilidades, mesmo diante das adversidades; antecipar crises, prever adversidades e se preparar para elas; ter firmeza de propósito e manter a integridade. A resiliência pode ajudar empresas a estruturar melhor a estratégia e a gestão, para que se tornem mais coerentes com os objetivos propostos.
RH - Existem pré-requisitos para o uso da resiliência?
Eduardo Carmello - A resiliência pode apresentar resultados mais eficazes quando: há um momento verdadeiro e real de oportunidades de melhoria na organização; quando há clareza de resultados e indicadores que gerenciem o processo de mudança; quando líderes estão realmente comprometidos com a mudança e disposto a dar o exemplo dos novos procedimentos, princípios e comportamentos; quando pessoas organizam-se para assumirem responsabilidades e um sistema de monitoramento de melhoria de seus objetivos, competências e aprendizagem.
RH - A resiliência pode ser classificada em níveis?
Eduardo Carmello - A gestão utiliza o conceito de resiliência em diversos contextos e em níveis de maturidade organizacional. Uma empresa pode estar prestes a falir, outra está com dificuldades sazonais, outra precisa melhorar e aprimorar a performance. Todas precisam promover mudanças e podem ser resilientes. Mas é a mesma resiliência para todas as situações? Ao longo do processo de desenvolvimento da resiliência nas organizações, percebemos que ela pode apresentar diferentes significados, representados em níveis.
RH - Quais seriam esses níveis?
Eduardo Carmello - Resiliência nível 1 (RN1) – Quem se recupera de traumas e adversidades; Resiliência nível 2 (RN2) – Quem se torna mais flexível, fluído, leve, consistente e econômico; Resiliência nível 3 (RN3) – Quem cresce e fortalece, mesmo em situações adversas ou de mudança; Resiliência nível 4 ou resiliência estratégica (RN4) – Quem antecipa acontecimentos, produz congruência e pode inclusive transformar a realidade.
RH - Alguma recomendação final para os interessados em aplicar a resiliência no dia-a-dia corporativo?
Eduardo Carmello - A aplicação da resiliência exige um processo integrado de atualização e ajuste do modelo mental da empresa e sua capacidade de modificar os conhecimentos e as competências para obter uma execução e um processo operacional que manifesta exatamente suas intenções estratégicas. O resultado é uma empresa mais preparada e engajada para construir seu futuro sustentável. Vale a pena lembrar que o ser resiliente é aquele que decidiu interpretar a adversidade como uma circunstância e um aprendizado da vida. Escolheu a inteligência e a esperança em vez da vitimização e do desespero.
Texto retirado do site RH.com.br
Autora: Patricia Bispo



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